Mãe busca responsabilização de bets e influenciadores após morte do filho por dependência em apostas online.
A professora Vânia de Souza Borges, de Uberlândia (MG), luta para que plataformas de apostas esportivas e influenciadores digitais sejam investigados e responsabilizados após a morte do filho, Rafael Borges Amaral, de 26 anos. Para a família, o vício em jogos de azar online agravou um quadro de depressão e contribuiu para o suicídio do jovem.
O caso voltou a ganhar destaque nacional depois que documentos apresentados por Vânia passaram a integrar os trabalhos da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) das Bets. A repercussão também motivou o envio de uma representação ao Ministério da Justiça e Segurança Pública, que confirmou ter recebido o pedido e informou que ele está sendo analisado pelas áreas técnicas competentes.
Segundo a mãe, Rafael começou a mudar de comportamento conforme aumentava a frequência das apostas. Antes sociável, ele passou a se afastar de amigos e familiares, demonstrava irritação constante após perder dinheiro e direcionava boa parte de sua renda para as plataformas de jogos.
Após a morte do filho, Vânia teve acesso aos e-mails e perfis dele nas redes sociais e encontrou uma grande quantidade de mensagens enviadas por empresas de apostas. As comunicações ofereciam bônus, rodadas gratuitas e incentivos para que ele voltasse a apostar. De acordo com a professora, as notificações continuaram sendo enviadas mesmo após o falecimento de Rafael.
Em uma carta encaminhada ao Ministério Público, posteriormente anexada aos documentos da CPI das Bets, Vânia relatou que o filho dizia, no início, conseguir obter lucro com as apostas. Com o passar do tempo, porém, as perdas financeiras se tornaram frequentes e cada vez maiores. Conforme a família, Rafael chegou a vender uma motocicleta seminova, avaliada em aproximadamente R$ 8 mil, perdeu suas economias e escondia dos parentes a dimensão do problema.
Dias antes da morte, o jovem enviou um áudio a um amigo confessando que já não conseguia controlar o vício em apostas online. Na gravação, ele também mencionava as sucessivas perdas de dinheiro. Segundo Vânia, informações obtidas junto a um banco digital mostram que, às 1h48 do dia em que morreu, Rafael realizou uma transferência de R$ 30 para uma conta vinculada à empresa responsável pelo chamado “Jogo do Tigrinho”.
A professora afirma que ainda não conseguiu identificar o valor total gasto pelo filho em apostas, já que outras instituições financeiras negaram acesso aos extratos completos, alegando sigilo bancário.
Além dos prejuízos financeiros, a família relata que Rafael perdeu um emprego porque passava noites apostando e, em consequência, faltava ao trabalho. Vânia conta que tentou convencer o filho a abandonar o hábito, mas ele não reconhecia que estava enfrentando uma dependência.
Depois da morte de Rafael, a professora procurou a Promotoria Criminal de Uberlândia em busca de providências. O caso foi encaminhado às Promotorias de Defesa do Consumidor e da Saúde, porém o Ministério Público de Minas Gerais decidiu arquivar a investigação em maio de 2025.
Vânia também buscou a Polícia Civil de Minas Gerais para solicitar a abertura de um inquérito policial. Segundo ela, foi informada de que não seria possível dar continuidade às investigações.
Com a repercussão do caso durante a CPI das Bets, a deputada federal Dandara (PT-MG) protocolou uma representação junto ao Ministério da Justiça e Segurança Pública. O documento pede que a Secretaria Nacional do Consumidor (Senacon) e o Departamento de Proteção e Defesa do Consumidor apurem possíveis práticas de publicidade enganosa, estratégias digitais consideradas predatórias e eventuais falhas na proteção aos consumidores por parte das plataformas de apostas.
A representação também solicita investigação sobre a atuação de influenciadores digitais, afiliados e agências de publicidade que promovem esse tipo de serviço.
Em nota enviada ao g1, o Ministério da Justiça informou que o pedido foi oficialmente recebido e está em análise, seguindo os procedimentos administrativos previstos. Já o Ministério Público de Minas Gerais e a Polícia Civil de Minas Gerais foram procurados para comentar o arquivamento do caso e a possibilidade de abertura de investigação, mas não haviam se manifestado até a publicação da reportagem.
